Acompanhe o conto com esta música:
Se contorceu e franziu o cenho ao experimentar o sabor amargo daquela mistura cor-de-terra, mas não tanto quanto franzia e gemia de dor com a ferida aberta em sua coxa direita. Gemeu mais um pouco quando Balthazar, o curandeiro, tirou a goma mascada de folhas e outros ingredientes, que preferia não denominar, sequer lembrar, e socou na chaga para estancar a sangria.
O som do fogo bruxuleando ao vento e as luzes da tochas que se sacudiam freneticamente ao seu redor o deixavam tonto. Sentiu um frio percorrer-lhe a espinha e arrepiou-se. Febre.
"Que tipo de males aqueles lobos carregavam em suas presas e debaixo de suas garras?" - imaginou.
Eles ainda os cercavam e, mesmo com seus companheiros de viagem brandindo espadas, escudos, tochas, não sentia-se protegido. Os lobos simplesmente não pareciam se importar ou ter medo.
O pulso acelerou. Balthazar proferia palavras ininteligíveis para um ser humano comum que se misturavam com o rosnado dos lobos, as tochas contra o ar, as batidas de seu coração frenético... A cacofonia surda que mais parecia os tambores do fim. A dança final com a dama de negro. O prenúncio da morte. Ele pedia isso, não mais suportava o sofrimento. Suas costas doíam cada vez mais. Sua face. Os olhos ardiam. Começou a arrancar as amarras de sua armadura que lhe impediam de respirar, estava cada vez mais apertada. Suas pupilas dilataram-se e Balthazar, horrorizado, caiu para trás, apoiando-se em um dos braços e tentando proteger-se, em vão, da visão aterradora com o outro. Sua ferida parecia não mais lhe doer, sentia-se forte e revigorado.
O silêncio parecia cair tão bem, que mal percebeu que era lua cheia. Fitou-a e uivou. Os lobos, assim como seus amigos assustados, andavam para trás, incrédulos, amendrotados com o que presenciavam. Os lupinos nunca viram um de sua espécie tão forte.
Pôs-se de pé. Era hora de uma conversa justa com seus pares.
Lobos!
Autor: Beto Campos / Ingredientes: cavaleiros, conto, fantasia, licantropia, lobisomem, lobos, magia, mediaval
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